PF faz buscas contra Mario Frias e produtora do filme sobre Bolsonaro
Operação Make Up cumpre 49 mandados em quatro estados e apura desvio de emendas parlamentares ligado a Dark Horse
10 de setembro de 2026 às 07:22

A Polícia Federal cumpriu, nesta quinta-feira (10), 49 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e no Distrito Federal. A ação mira o financiamento do filme "Dark Horse", ainda não lançado, que conta a história do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Entre os alvos estão a produtora do filme, Karina Gama, e o deputado federal Mario Frias (PL-SP). A investigação atinge outras 20 pessoas. Não há mandados de prisão na operação.
O caso está sob relatoria do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal. O inquérito, que tramitava em São Paulo, foi avocado pelo STF.
Existem duas investigações em curso no STF sobre o filme. A que está com Dino apura possível uso irregular de emendas parlamentares e de dinheiro público destinado a entidades e empresas ligadas à produtora.
Outro inquérito, sob relatoria do ministro André Mendonça, examina repasses feitos pelo ex-banqueiro preso Daniel Vorcaro a pedido do senador Flávio Bolsonaro (PL), e o trajeto desse dinheiro.
A operação desta quinta, batizada de "Make Up", foi deflagrada pela Polícia Federal e pela Controladoria-Geral da União (CGU). Segundo a PF, a investigação apura suposto esquema de desvio de recursos públicos oriundos de emendas parlamentares.
De acordo com a PF, uma organização criminosa formada por agentes públicos e privados teria direcionado recursos repassados a uma organização da sociedade civil para empresas subcontratadas de forma irregular, sem comprovação de que os serviços foram prestados.
A corporação afirma ter identificado movimentações de centenas de milhões de reais entre empresas ligadas ao esquema. Segundo a PF, as tentativas de ocultar os desvios continuaram até julho deste ano.
São investigados crimes de peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes licitatórios.
Em maio, o site Intercept Brasil revelou troca de mensagens e um áudio em que o senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência, cobrava dinheiro de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, para financiar o filme sobre Jair Bolsonaro.
Segundo a reportagem, Vorcaro pagou ao menos R$ 61 milhões em 2025. O dinheiro foi transferido para um fundo nos Estados Unidos administrado por um advogado ligado ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL), irmão de Flávio.
Na quarta-feira (9), o ministro André Mendonça homologou o acordo de delação premiada de Antonio Carlos Freixo Junior, conhecido como "Mineiro".
Mineiro é dono da Entre Investimentos, empresa que, a mando de Vorcaro, fez repasses para "Dark Horse". O dinheiro havia sido pedido a Vorcaro por Flávio Bolsonaro.
Em sua delação, assinada com a Procuradoria-Geral da República em 8 de agosto, o empresário afirmou que era responsável por "gerar" dinheiro vivo para a equipe de Vorcaro. Segundo ele, o dinheiro era entregue em malas e usado para pagamentos de propina.
Mineiro disse ainda ter feito sete repasses, classificados como "subscrições de cotas", para o fundo Havengate, nos Estados Unidos. As transações ocorreram entre janeiro e setembro de 2025 e somaram US$ 12,333 milhões, equivalentes a R$ 62,8 milhões pela cotação de setembro daquele ano.
"Entre o final de 2024 e início de 2025, Antonio Carlos foi contatado por Daniel Vorcaro, por WhatsApp, com a solicitação de envio de valores ao exterior por meio da subscrição de cotas desse fundo pela Entre Investimentos. Até esse momento, Antonio Carlos desconhecia o fundo em questão", afirmou o empresário.
"A solicitação inicial de Daniel Vorcaro foi para o envio de cerca de US$ 24 milhões, que seriam operacionalizados em mais de dez subscrições, entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026", disse Antonio Carlos. No fim, apenas sete transações foram realizadas.
Vorcaro foi preso pela primeira vez em novembro de 2025. Flávio Bolsonaro vinha afirmando que o último pagamento de Vorcaro havia ocorrido em maio de 2025, mas um pagamento de setembro, no valor de US$ 1,666 milhão, contraria essa versão.
Mineiro entregou às autoridades comprovantes das transferências e e-mails trocados com o responsável pelo fundo Havengate, o advogado Paulo Calixto, que atua para o ex-deputado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
"No início de 2025, foi feito contato, por e-mail, com o gestor fiduciário do fundo, Paulo Calixto, para as formalizações necessárias, o que cumulou na assinatura de uma 'Letter of Agreement' [carta de compromisso] em janeiro de 2025, pela Entre Investimentos, prevendo mais de dez subscrições de cotas do Havengate Developmente Fund", disse o dono da Entre Investimentos.
"Um pouco antes de cada uma das demais subscrições previstas na 'Letter of Agreement', Daniel Vorcaro entrava em contato com Antonio Carlos, por WhatsApp, para que ele formalizasse a subscrição e fizesse o pagamento respectivo", relatou o empresário.
Antonio Carlos afirmou não ter conhecimento do destino final dos valores enviados ao fundo Havengate. A Polícia Federal investiga se todo o dinheiro foi usado no filme "Dark Horse", como sustentam Flávio Bolsonaro e a produtora Go Up, ou se parte dos recursos teve outro destino, como bancar Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
Em sua delação, o empresário também afirmou ter feito outros pagamentos no exterior, a mando de Vorcaro, por meio de sua empresa Entre Investments and Arbitrage Ltd., sediada em Nassau, nas Bahamas. Segundo ele, Vorcaro enviava "invoices" (faturas) que deveriam ser pagas, mas não detalhou quem eram os beneficiários.
Uma das linhas de investigação da PF apura se recursos mantidos em paraísos fiscais, como as Bahamas, também foram enviados ao fundo Havengate ou a pessoas ligadas a ele.
Procurado, o advogado do delator, Marco Petrelluzzi, disse que não vai comentar o caso por causa do segredo de Justiça.
A assessoria de Flávio Bolsonaro, questionada sobre os relatos do delator, respondeu que as informações têm sido dadas pela produtora Go Up, que já apresentou as contas do filme.
A Go Up contratou uma auditoria particular que, em junho deste ano, considerou regulares as contas de "Dark Horse", mas não tornou públicos os documentos, como notas fiscais dos gastos do filme. Segundo essa auditoria, o filme custou R$ 75 milhões e foi bancado pelo fundo Havengate.