Peixe de cabeça transparente intriga cientistas nas profundezas do Pacífico
Macropinna microstoma tem olhos verdes tubulares que giram dentro da cabeça protegida por uma estrutura transparente
10 de setembro de 2026 às 16:29

A centenas de metros abaixo da superfície do Pacífico vive um peixe com anatomia pouco comum. O peixe olhos-de-barril, cujo nome científico é Macropinna microstoma, tem uma cabeça parcialmente transparente que protege dois grandes olhos tubulares.
Nesse ambiente, a luz é escassa. Qualquer capacidade extra de captar sinais visuais pode ajudar o animal na busca por alimento.
Os grandes globos verdes visíveis dentro da cabeça são os olhos verdadeiros do peixe. Os dois pequenos pontos acima da boca não são olhos: são órgãos olfativos, chamados narinas ou nares.
A estrutura transparente que envolve os olhos é preenchida por líquido e funciona como proteção para o sistema visual. O restante do corpo do animal não é transparente, ao contrário do que algumas imagens populares sugerem.
O MBARI explica que a aparência incomum da espécie levou décadas para ser compreendida. Exemplares capturados por redes costumavam chegar à superfície com a delicada estrutura da cabeça já danificada.
Os olhos do peixe têm formato tubular e são extremamente sensíveis à luz. Essa característica permite localizar pequenas presas acima do animal, aproveitando as silhuetas formadas contra a pouca luminosidade que ainda chega da superfície.
Por muito tempo, pesquisadores acreditaram que esses olhos ficavam fixos nessa posição voltada para cima. Observações feitas por veículos submarinos controlados remotamente mudaram essa interpretação.
Em 2009, pesquisadores do MBARI mostraram que os olhos do Macropinna microstoma conseguem girar dentro da estrutura transparente. Quando o animal procura alimento, eles apontam para cima. Durante a alimentação, podem mudar para uma posição mais frontal.
Essa descoberta ajudou a explicar como um peixe aparentemente limitado a olhar para cima consegue capturar algo posicionado diante da própria boca.
O MBARI registra a espécie principalmente entre 600 e 800 metros de profundidade, numa faixa do oceano conhecida como zona mesopelágica, ou zona crepuscular. O alcance geográfico documentado inclui o Pacífico Norte, entre o mar de Bering, o Japão e a região da Baixa Califórnia.
Nessa parte do oceano, a disponibilidade de alimento é limitada e a luz natural é muito fraca. Por isso, o peixe desenvolveu adaptações que ajudam a economizar energia enquanto procura pequenas presas.
As grandes nadadeiras achatadas do animal permitem que ele fique praticamente imóvel na água e faça movimentos precisos. Segundo o MBARI, a dieta inclui zooplâncton, crustáceos e organismos associados a sifonóforos.
Pesquisadores levantam a hipótese de que o peixe aproveite pequenos animais capturados pelos tentáculos desses organismos coloniais. A estrutura transparente sobre os olhos poderia oferecer proteção contra as células urticantes presentes nesses tentáculos. O próprio MBARI trata essa possibilidade como uma hipótese baseada nas observações disponíveis.
A anatomia do peixe olhos-de-barril só ficou mais clara quando pesquisadores conseguiram observá-lo vivo, em seu ambiente natural. Os registros feitos por veículos submarinos mostraram a cabeça transparente intacta e permitiram acompanhar o movimento dos olhos.
O MBARI destaca que descrições e ilustrações antigas não representavam corretamente essa estrutura, porque ela costumava ser destruída durante a captura em redes.